Sobre o casamento
Ou sobre fazermos as coisas à nossa maneira
Sento-me no café onde escrevo quando não estou a trabalhar. É muito cedo (de madrugada, diriam) e há pouca gente. Peço um café e uma água das pedras, uma torrada aparada, um sumo de laranja e, quando lhe sinto o cheiro, um palmier em miniatura.
Tenho os lençóis marcados nas bochechas e há muitas partes de mim que ainda dormem.
Ontem, de cara colada à almofada, vim finalmente à tona depois de passar o último mês e meio submersa na obra da Otessa Moshfegh1. Foi uma imersão literária, provocada por um presente de Natal, que terminou ontem com Lapvona.
A primeira vez que me cruzei com a Otessa foi num voo entre Lisboa e Nova Iorque. A minha irmã, que me acompanhava nessa viagem, trazia o “My Year of Rest and Relaxation” na edição de bolso e sugeriu que o lesse quando o terminasse. Assenti porque a vi convicta de que iria gostar e, sobretudo, porque se passava em Nova Iorque. Li-o aos poucos e terminei-o em lágrimas no voo de regresso.
Desde esse dia até ao último Natal não voltei a ler nenhum outro livro da escritora.
Em meados de Dezembro passado, numa livraria no centro de Lisboa, deparei-me com uma colecção da A24 que reúne guiões de alguns filmes da produtora, completados com fotografias e reflexões ensaísticas.
The Lobster, de Yorgos Lanthimos, encabeçava a pilha e ao folheá-lo, percebi que um dos ensaios era de Otessa. Comprei-o, embrulhei-o e ficou debaixo da árvore até à manhã de dia 25, quando o ofereci ao meu marido.
Morava em Barcelona e ele em Milão quando vimos The Lobster pela primeira vez; cada um no seu quarto arrendado, cada um no seu computador que colapsava recorrentemente por causa dos acessos piratas. Dez anos depois, continua a ser um dos meus filmes preferidos.
No filme, a lei proíbe estar-se solteiro. Quem não estiver num relacionamento é enviado para um hotel onde tem 45 dias para encontrar uma alma gémea. Os critérios para se encontrar essa alma gémea são definidos pela gerência: partilhar um traço físico ou um traço de personalidade. Se durante esses 45 dias não existir correspondência, a pessoa é transformada num animal à sua escolha e largada na floresta.
Na floresta vivem os solitários, uma comunidade marginal cuja única lei é que não se permitem relacionamentos amorosos. O protagonista, enviado para o hotel após o divórcio, foge num súbito rebate de consciência e junta-se aos solitários onde conhece a protagonista, uma mulher miúpe, por quem se apaixona. Na procura de um lugar onde os deixem viver aos dois o seu amor segundo as suas regras, decidem fugir para a cidade e começar uma vida a dois, longe do hotel e longe da floresta.
Ao ler o ensaio da Otessa, em que a propósito do filme, discorre sobre a definição de alma gémea, ocorreu-me que talvez este continue a ser um dos meus filmes preferidos por caricaturar satiricamente as leis do romantismo, do casamento e da monogamia.
Tal como a Otessa, também eu me casei às escondidas, numa cerimónia sem testemunhas. Ela e o actual marido chamaram a conservadora ao apartamento em Nova Iorque; eu e o meu actual marido descemos a rua numa sexta-feira de Verão, parámos para tomar o pequeno-almoço num café do centro da cidade e, em menos de 15 minutos, numa cave da conservatória da Avenida Fontes Pereira de Melo, estávamos casados.
Pagámos 120 euros, não assinámos nenhum papel e, para celebrar, passámos o dia na praia. Comemos amêijoas e percebes ao jantar e dormimos numa cama de hotel com dois metros de largura, para que nenhum de nós se sentisse aprisionado. Sós, a dois, decidimos casar um com o outro.
Ainda que não vivamos no mundo utópico de The Lobster, existem igualmente convenções sociais que tornam a discussão em torno do casamento, a meu ver, irrazoável. Há quem se posicione a favor e contra, como se o casamento se tratasse de uma tourada.
De um lado da barricada, os guardiões da moral e dos bons costumes que consideram o casamento o dia mais feliz da sua vida (a seguir ao nascimento dos filhos está claro), que consideram o matrimónio um selo de aprovação divina antes de poderem ir para a cama com um homem e/ou um atestado de validação de um amor eterno e que deus livre quem ficar solteiro.
Do outro, os guardiões do rigor histórico que consideram o casamento uma instituição historicamente construída para a opressão das mulheres, que consideram que não vale a pena casar quando o mais provável é que acabe em divórcio, que é uma obscenidade o dinheiro que se gasta em cascatas de camarão e deus livre quem queira assumir um compromisso, seja aos olhos da lei ou da igreja ou apenas na sua forma lata.
Numa amnésia colectiva posicionamo-nos de um lado ou do outro e esquecemo-nos de que se preferimos, podemos antes “fugir para a cidade” como os protagonistas de The Lobster, ou seja, fazer à nossa maneira, usufruindo do privilégio de vivermos em liberdade.
Casei-me com a pessoa que amo neste momento da minha vida porque é ele a minha família e não quero que em nenhum momento quedem dúvidas sobre isso. É com ele que vivo, é ele quem quero que decida se se desligam as máquinas caso eu esteja numa cama de hospital, é ele o cabeça de casal caso eu enlouqueça, é com ele que divido as contas da luz, do gás, da água e da Vodafone, é ele o pai dos meus hipotéticos filhos e é, até ao dia de hoje, o homem mais belo que jamais existiu.
Da mesma forma que numa manhã de Verão descemos a rua para casar, sei que, no dia em que deixar de fazer sentido estarmos juntos, desceremos a mesma rua para assinar os papéis do divórcio. Pagaremos 240 euros e provavelmente passaremos o dia na praia, cada um na sua, para que não nos sintamos aprisionados.
Um dia talvez façamos uma festa.
Até lá, sós, a dois, vamos decidindo continuar casados um com o outro e estou crente que isso basta.
Obrigada por terem lido.
Até já,
Rita





Eu também chorei. Mas foi porque a pessoa por quem eu senti isso tudo não o sentiu comigo…
Ainda assim acho que o casamento é um compromisso bonito.
A mais bela história sobre o casamento. Até eu quero descer a rua e casar assim. Adoro.