Sobre Nova Iorque
Ou sobre como Nova Iorque me partiu o coração.
Há pouco tempo acabei de ler A Queda de Um Anjo de Camilo Castelo Branco. Para quem nunca leu A Queda de Um Anjo, o plot é simples: um morgado transmontano, que é eleito deputado, muda-se para Lisboa.
Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda é o protagonista da novela Camiliana e no capítulo três, pouco depois da sua chegada a Lisboa, fica alguns dias de caganeira porque bebeu a água das fontes da capital.
Os livros tinham-lhe prometido que a água alfacinha era a mais pura das águas e que por beberem dela até as mulheres eram mais bonitas. A desilusão do morgado da Agra de Freimas não é imediata, nem sei se algum dia chega, mas com medo de uma disenteria, ao longo do restante livro passa a alimentar-se essencialmente a salpicão e vinho.
Nunca fui emigrante, nem me mudei de malas e bagagens para lado nenhum. Nas terras em que morei sempre soube que seria sol de pouca dura. Em Barcelona estive quase um ano, no Porto quase dois e em Nova Iorque, numa relação a que decidi chamar espargata transatlântica, mantive-me durante quase três.
Quando mergulhada nos textos que li para a disciplina Arte e Ensaio, me deparei com este ensaio da Didion e este ensaio da Dunham senti-me impelida a escrever também sobre o que tinha sido a minha relação com New York, New York.
Ora, quando a Joan Didion e a Lena Dunham escreveram os seus ensaios Goodbye To All That e Why I Broke Up with New York e os publicaram, escreveram sobre uma relação longa que deu em divórcio — tal como Gregório Duvivier quando publica a carta de amor mais bonita do mundo Desculpe o transtorno, preciso de falar sobre Clarice na Folha de São Paulo. São amores sérios e que por isso merecem aparecer na primeira página do jornal.
Porém, no meu caso, a minha relação com a cidade que nunca dorme não foi um amor sério. Foi um amasso numa discoteca, uma rapidinha no banco de trás de um carro, um beijo de língua contra a parede num beco escuro.
Nova Iorque foi um homem lindo por quem me apaixonei tal como se apaixonam os poetas e, tal como os poetas, sempre soube que não seria meu.
Quando li o romance do Camilo revi-me no Calisto Elói. Percebi-lhe o jeito, a impaciência, o moralismo e a falsa modéstia. Talvez porque tenha tendência para me identificar com as personagens aparentemente sérias mas que se atrapalham e tropeçam nas suas próprias hipocrisias: como cães de fila que não largam o osso, mesmo que isso implique que sejam irrazoáveis, pouco inteligentes ou que corram em círculos até ao coração lhes saltar da boca. Quando li o The Great Gatsby achei que o old boy tinha sido inspirado em mim. Mesmo no fim quando o seu nível de deluluness é trágico ao achar que a Daisy vai deixar o status quo (esse destruidor de finais felizes) por amor a ele. E quando li o To The Lighthouse decidi que Virginia Woolf tinha escrito Mr. Ramsey à minha imagem, pelo menos até a meio do livro.
Porém, Camilo não escreveu Benevides de Barbuda a pensar em mim. Escreveu-o a pensar naquilo que eu podia ter sido se me tivesse deixado levar. Ao contrário de mim, o morgado deixou de querer voltar a casa. Apaixonou-se, comprou mobília, viajou pela Europa, passou épocas estivais em Sintra nos braços da sua amada brasileira, mudou de maneira de vestir e deixou crescer a barba. A prima com quem era casado na província e a propriedade com porcos e cabras ficou longe da vista, logo longe do coração. O moralismo carrancudo que trazia atado ao corpo foi deixado perdido algures num banco de jardim, e despido deixou-se mergulhar nas águas vívidas das sete colinas lisboetas.
No puritanismo do final do século XIX, Calisto perdeu-se. Na moral hedonista do século XXI, Calisto encontrou-se. Nas duas, Calisto não se acobardou, ao contrário de mim.
Se Nova Iorque foi o tal homem no bar, mantivemos uma relação de toca-e-foge durante um período de tempo que hoje em dia seria tóxico, for sure. Trocámos promessas de qualquer coisa mais definitiva, que a seu tempo me mudaria para lá. No princípio eu queria, mas ela não queria. A meio convencemo-nos que a distância nos fazia bem e que éramos felizes num mundo de idas e voltas e quando chegou o fim engordei dez quilos, chorei litros de água que podiam compor o oceano que nos separa e decidi que estava bom e que na verdade queria era ficar aqui.
Não foi o desgosto de perdê-la que me custou mais. Foi descobrir-me a mim como alguém que prefere ficar em vez de ir. Eu, o cão de fila, a voltar para casa com o rabinho entre as pernas.
Até já,
Rita.




Eu tinha o sonho de ir a Nova Iorque, e até de lá morar. No entanto visitei em outubro deste ano e fiquei um bocado desiludida. Mas uma desilusão que me faz querer voltar um dia. É mais difícil de explicar do que parece.
precisava deste texto, que lindo!