Sobre ir à terapia
Sentei-me na poltrona preparada para mais uma consulta — a do fim do ano, a das resoluções, a dos balanços. Desta vez vinha munida de conclusões que, enquanto ocupavam apenas o meu espaço mental, me pareciam brutalmente sagazes e astutas.
Vejamos: eu não me costumo preparar para as consultas. Deixo-me florescer no meio do caos hermético. Se me apetecer discorrer sobre palmilhas durante cinquenta minutos, assim farei. Naquela sala, com tapetes marroquinos e candeeiros com vidrinhos às cores, não cabem a organização e o método. É o sítio das sombras, onde mostro o cotão atrás da porta, onde confesso que calcei as mesmas meias dois dias seguidos porque não me apeteceu pôr a máquina a lavar, onde todos os meus resquícios de malvadez ficam expostos, assentes num pequeno pedestal com uma luz apontada, tal como num museu. De quinze em quinze dias enfrento a minha terapeuta para que ela ilumine com perícia os restos mal cheirosos do frigorífico que não quero mostrar a ninguém; para que me olhe nos olhos e diga:
“Rita, acha mesmo que está a pensar bem?”
A Doutora Vissram tem um tom trocista, menos quarenta centímetros que eu, veste-se como se tivesse saído do Andanças e bebe água quente compulsivamente. É ela que está refastelada numa chaise-longue, enquanto eu me mantenho sentada muito direita numa poltrona amarela do ikea — a mesma que todos os casais, que foram morar juntos durante a pandemia, adquiriram para ser o seu cadeirão de leitura dos livros que nunca lêem.
Descobri muitas coisas na terapia: que tenho laivos de mesquinhez, que me acobardo com regularidade, que evito o confronto apesar de encher o peito tal e qual uma jogadora do Big Brother. Descobri que raramente digo o que penso e que quero agradar, quero muito agradar, quero desesperadamente que gostem de mim.
Comecei a fazer terapia porque precisava de um espelho, daqueles que aumentam os pontos negros na ponta do nariz.
Mas faço terapia porque para escrever não vejo outra forma.
Se eu não conhecer com mestria as minhas falhas de carácter, como poderei escrever personagens cheias delas?
Creio que os melhores personagens não são os heróis e os vilões. São os outros, os que vivem num território ambíguo, capazes dos maiores actos de bravura e das maiores atrocidades: os que são escritos à nossa imagem e não os que têm tiques de Deus.
Quem tem paciência para o Vecna ou para o Frodo quando existem o D. Quixote, o Bazárov, a Cersei e o Draco Malfoy?
Acho que, de uma maneira geral, “ir à terapia” tem má fama. Pode estar na moda, mas tem fama de lugar onde lambemos as nossas feridas, nos fazemos de coitadinhos e choramos muito. Até pode haver quem lá vá para isso, no entanto, nos últimos três anos foram mais as vezes em que escrutinei prazeres ruins e pecados mortais dos que os que me achei uma santa ou uma coitadinha.
Pode isso acontecer porque sou má rês, mas duvido.
Desta vez, na última consulta do ano passado, estava orgulhosa por me ter preparado. Queria mostrar-lhe a que brilhantes conclusões tinha chegado sobre o ano que passou e os planos que tinha para o futuro. E depois dos convencionais cumprimentos, e antes que pudesse começar a despejar o que tinha ensaiado, a Doutora Vissram sacou de um cigarro e, enquanto batia com o filtro no maço, fitou-me com os seus olhos de raposa velha e perguntou:
“E então, Rita, como foi a sua quinzena?”
Senti-me como se tivesse passado a noite a estudar os substratos geológicos para agora me ver em mãos com a tarefa de identificar os principais alvos da crítica Queirosiana.
Eu que estava tão bem preparada, não sabia o que responder.
Entretida com os balanços do ano que ia deixar para trás e o planeamento de um ano que ainda não tinha chegado, não me tinha posto a par da quinzena que tinha acabado de passar por mim.
Sabem quando a luz vai abaixo e alguém vai até ao quadro e puxa o interruptor para cima e, num estalido metálico, a casa que estava às escuras volta a estar iluminada; e voltamos a ouvir o exaustor e a máquina da loiça e a voz do pivot do telejornal ao fundo? Ir à terapia tem muitas vezes o mesmo efeito.
Nesse dia, sentada muito direita como quem equilibra uma trouxa de roupa no topo da cabeça, percebi que talvez não era hora para grandes reflexões, nem para grandes balanços e no desamparo de não saber ao que vinha, relaxei os ombros, refastelei-me e removi cuidadosamente o peso invisível que trazia sobre a minha cabeça.
E talvez porque fiquei menos pesada ou porque percebi que a trouxa invisível tinha o cheiro podre das metas e dos objectivos, nas horas a seguir à consulta fui um pouco mais meiga com quem se cruzou comigo.
Mas não se enganem. Depois de três anos a deixar amontoados de roupa no chão daquele consultório, continuo velhaca. Porém, nem que fosse pelas horas de brandura do pós-terapia, continuo também convicta de que todos nos devíamos sentar naquela cadeira.
Esta é a primeira siete de 2026 e, neste ano novo, desejo-vos muitos mergulhos no mar, pazadas de chá quente, resmas de livros e muitas pipocas de cinema, de mistura, de preferência.
Obrigada por terem lido.
Até já,
Rita



